Imagine-se a situação em que uma pessoa precisa de recorrer a uma urgência e consulta os sites de dois hospitais privados. Um indica vinte minutos de espera; o outro, uma hora e meia. Escolhe, naturalmente, o primeiro. Quando chega, acaba por esperar duas horas para ser atendida.
O exemplo é hipotético, mas o problema é relevante, pois o tempo de espera pode ser decisivo na escolha do profissional por parte do consumidor. Ao ser divulgada para promover o serviço, esta informação integra o contrato posteriormente celebrado e determina legítimas expectativas quanto ao tempo do atendimento. É a partir desta vinculação que o problema deve ser analisado.
O que significa o tempo de espera apresentado?
Os sites da CUF, do Hospital da Luz Lisboa e do Hospital Lusíadas Lisboa disponibilizam informação sobre tempos de espera. A CUF apresenta valores por prioridade de triagem; o Hospital da Luz identifica o tempo de espera para adultos e pediatria; os Lusíadas apresentam, para adultos, valores separados para pulseiras verdes e amarelas, com indicação da última atualização.
Estes exemplos permitem discutir a informação disponibilizada por três grandes prestadores privados em Lisboa, sem imputar a qualquer deles a divulgação de dados incorretos.
A designação e a explicação do indicador não são uniformes. Na página da CUF consultada, surge expressamente a referência a tempo médio e ao cálculo sobre as últimas duas horas. O Hospital da Luz explica que o tempo respeita aos utentes de menor urgência na última hora. Na página principal do Hospital Lusíadas Lisboa, os valores surgem como tempo de espera, por prioridade.
Uma média das últimas duas horas é um indicador atual do funcionamento do serviço, utilizado pelo consumidor para decidir onde se deslocar. O facto de o cálculo assentar em atendimentos já realizados não lhe retira essa atualidade nem a sua relevância contratual. É diferente de uma média dos últimos dois meses, em princípio menos apta a criar expectativas sobre a espera naquele momento. Ambas devem, em qualquer caso, ser verdadeiras. O período de referência influencia a utilidade da informação e as expectativas que legitimamente suscita, mas não dispensa o rigor dos dados nem da sua apresentação.
Interessa sobretudo a mensagem transmitida ao consumidor que precisa de decidir a que hospital se deslocar. Um número apresentado como tempo de espera cria uma expectativa quanto à rapidez do atendimento, que pode influenciar a sua decisão. A explicação do método de cálculo deve ser clara e estar acessível junto do indicador. Também não se deve, naturalmente, confundir a espera após a triagem com todo o tempo passado no hospital.
Uma informação com relevância contratual
O artigo 7.º, n.º 5, da Lei de Defesa do Consumidor determina a integração no contrato das informações concretas e objetivas constantes de mensagens publicitárias. A divulgação dos tempos de espera nestes sites promove a utilização dos serviços e fornece um elemento concreto de escolha. A informação integra, assim, o contrato posteriormente celebrado, tendo-se por não escritas as cláusulas contratuais em contrário. O artigo 8.º exige ainda informação clara, objetiva e adequada sobre o serviço.
Esta integração não significa que o hospital tenha de atender o consumidor no minuto exato indicado. Significa que o tempo anunciado conforma as legítimas expectativas quanto ao serviço contratado. Quem escolhe um hospital que indica vinte minutos de espera pode legitimamente esperar um atendimento num horizonte temporal próximo desse valor, consideradas a sua prioridade clínica e as circunstâncias concretas. Uma espera de, por exemplo, duas horas exige uma explicação que não se resume à afirmação de que o número era meramente indicativo. O artigo 4.º da Lei de Defesa do Consumidor liga precisamente a qualidade do serviço às legítimas expectativas do consumidor.
O caráter variável da atividade de urgência ajuda a interpretar a vinculação. A entrada de casos mais graves pode justificar uma demora adicional, prevalecendo sempre a prioridade clínica. Mas uma ressalva sobre possíveis flutuações não elimina a relevância contratual do tempo divulgado nem transfere integralmente para o consumidor o risco de uma informação sem correspondência razoável com as condições do atendimento.
Quando a espera é muito superior
Importa distinguir uma alteração da espera justificada por circunstâncias clínicas supervenientes de uma discrepância significativa que já era previsível quando a informação foi divulgada. Devem também considerar-se a fiabilidade dos dados, a sua atualização e a organização do serviço. A divergência não prova automaticamente o incumprimento, mas a natureza indicativa do número também não o exclui.
Se houver incumprimento de uma obrigação contratual, os artigos 798.º e 799.º do Código Civil permitem responsabilizar o hospital pelos prejuízos causados, presumindo-se a culpa do devedor. Essa presunção não dispensa a demonstração do incumprimento, do dano e do nexo causal. Despesas adicionais ou consequências de um atraso podem relevar, desde que se verifiquem os respetivos pressupostos. Não existe, no entanto, uma indemnização automática por cada minuto excedido.
A explicação da demora também conta. A necessidade de atender casos mais graves pode justificar a alteração do tempo de espera, mas não explica um número que já era incorreto quando foi publicado. Deve ainda avaliar-se se, perante uma alteração significativa conhecida, o hospital atualizou o site e esclareceu quem chegava.
O estacionamento pago em função da duração da permanência torna particularmente visível a dimensão económica da espera. Se o consumidor estaciona no parque do hospital, uma demora significativamente superior àquela que legitimamente podia esperar pode aumentar a despesa. O tempo anunciado influencia, assim, não apenas a escolha do prestador, mas também a expectativa quanto ao custo global da deslocação e do atendimento.
Verificados os pressupostos da responsabilidade, o acréscimo do custo de estacionamento imputável à demora injustificada pode constituir um dano patrimonial indemnizável. Está em causa a diferença entre o valor efetivamente pago e aquele que seria devido sem essa demora, considerando também o tempo necessário aos cuidados prestados. Os registos dos momentos de admissão, atendimento e saída podem ajudar a demonstrá-la. Mesmo que o parque seja explorado por outra entidade, isso não afasta, por si só, a eventual responsabilidade do hospital pelo acréscimo de despesa que tenha causado.
Práticas enganosas e direitos do consumidor
A divulgação de tempos de espera para atrair consumidores integra o conceito de prática comercial do artigo 3.º, alínea d), do Decreto-Lei n.º 57/2008, de 26 de março. O regime aplica-se antes, durante e após a transação e abrange os serviços de saúde. A apresentação de um número num quadro informativo do site, em vez de num anúncio tradicional, não afasta a sua aplicação. Ao utilizar esse número como argumento de escolha, o hospital submete a informação às regras sobre práticas comerciais desleais.
A decisão relevante também não se limita à celebração do contrato. No acórdão Trento Sviluppo (C-281/12), o Tribunal de Justiça da União Europeia esclareceu que o conceito de decisão de transação abrange decisões diretamente relacionadas com a aquisição, incluindo a deslocação ao estabelecimento. Este entendimento permite abranger a decisão de ir a determinado hospital por este anunciar uma espera inferior à dos concorrentes. A prática pode ser proibida mesmo que o consumidor, confrontado com a espera real, acabe por sair sem receber atendimento.
O artigo 7.º, n.º 1, alínea b), é particularmente relevante: o tempo de espera respeita às características principais do serviço, designadamente à sua disponibilidade e execução. Uma indicação falsa ou uma apresentação suscetível de induzir em erro sobre esse tempo pode constituir uma ação enganosa, se conduzir ou for suscetível de conduzir o consumidor a uma decisão que não teria tomado de outro modo. A capacidade de atrair consumidores precisamente pela rapidez anunciada torna clara a viabilidade deste enquadramento. O uso do indicador para captar clientes é lícito; o problema surge quando essa captação assenta numa mensagem enganosa.
Não é necessário que o número seja falso para existir uma prática enganosa. Uma média das últimas duas horas pode estar corretamente calculada e, ainda assim, ser apresentada de modo a transmitir uma imagem errada das condições atuais do atendimento. Pense-se, por exemplo, na manutenção em destaque de um tempo reduzido quando o hospital sabe que se acumulou entretanto uma fila que torna previsível uma espera muito superior, sem qualquer esclarecimento acessível ao consumidor. A apreciação deve atender à mensagem global e às circunstâncias existentes quando esta é transmitida. Uma alteração posterior imprevisível não transforma, no entanto, só por si, a informação anterior numa prática desleal.
O artigo 9.º permite ainda reagir contra omissões enganosas. Pode estar em causa a falta de esclarecimento sobre a prioridade clínica a que o número respeita, o período considerado, o momento a partir do qual se conta a espera ou uma alteração relevante já conhecida. A informação escondida, ambígua ou prestada apenas depois de o consumidor se deslocar pode ser insuficiente. É necessário avaliar, em cada caso, se o elemento omitido é substancial para uma decisão esclarecida e se a omissão é suscetível de influenciar essa decisão.
Para qualificar a prática como enganosa não é indispensável demonstrar uma intenção de enganar nem que um consumidor tenha sido efetivamente atraído. A suscetibilidade de influenciar a decisão é suficiente. Preenchidos os requisitos da ação enganosa, também não se exige uma demonstração autónoma de contrariedade à diligência profissional, como esclareceu o Tribunal de Justiça no acórdão CHS Tour Services (C-435/11).
O artigo 14.º prevê a redução adequada do preço ou a resolução do contrato celebrado por efeito de uma prática desleal, salvo impossibilidade ou abuso de direito, e o ressarcimento nos termos gerais. O conceito de produto abrange serviços. A redução do preço assume particular interesse quando o atendimento já ocorreu. Não depende da demonstração de um dano indemnizável, embora pressuponha a contratação por efeito da prática e deva ser adequada ao caso. O consumidor pode, assim, ter direito a pagar menos pelo serviço mesmo sem conseguir provar despesas adicionais ou outro prejuízo suscetível de indemnização. A lei não fixa, no entanto, uma correspondência automática entre minutos de espera e montante da redução.
A indemnização tem uma função diferente e depende dos respetivos pressupostos. Pode abranger, por exemplo, o acréscimo do custo de estacionamento causado pela prática, nos termos já referidos. A eventual cumulação com a redução do preço não deve duplicar a reparação do mesmo prejuízo. A resolução do contrato exige, por sua vez, ponderar a prestação de cuidados já realizada e os limites previstos na lei.
A verdade também protege a concorrência
Se um hospital divulga informação rigorosa e outro apresenta uma espera artificialmente reduzida, este pode captar consumidores à custa do primeiro. Cria-se um incentivo perverso, uma vez que a transparência perde clientes e a informação enganosa atrai-os.
O problema pode ser enfrentado através das regras sobre práticas comerciais desleais. O artigo 16.º do Decreto-Lei n.º 57/2008 permite aos concorrentes com interesse legítimo intentar ação inibitória para prevenir, corrigir ou fazer cessar essas práticas.
Seria desejável uma metodologia comparável entre prestadores, com identificação visível do período de referência, da prioridade clínica, do início e fim da espera medida e da última atualização. Sem observações, deve indicar-se a ausência de dados, evitando que um zero seja entendido como atendimento imediato. São propostas de transparência, não a descrição de uma metodologia uniforme já obrigatória.
Publicar tempos de espera pode melhorar a escolha dos consumidores e o funcionamento do mercado. Para isso, os números têm de ser compreensíveis e fiáveis. Ao divulgar esta informação para promover o serviço, o hospital integra-a no contrato e cria legítimas expectativas que deve respeitar. A flexibilidade necessária ao funcionamento de uma urgência não pode tornar irrelevante a informação que levou o consumidor a escolhê-la.



