Os dark patterns têm recebido crescente atenção no debate europeu sobre a proteção dos consumidores no ambiente digital. Em 2022, o Behavioural Study on Unfair Commercial Practices in the Digital Environment identificou pelo menos um dark pattern em 97% dos 75 sítios eletrónicos e aplicações analisados, entre os mais utilizados pelos consumidores na União Europeia. O Digital Fairness Fitness Check, publicado em 2024, voltou a destacar esses resultados ao avaliar a adequação da legislação europeia de proteção dos consumidores aos desafios do ambiente digital. A preparação do Digital Fairness Act, iniciativa legislativa destinada a reforçar os direitos dos consumidores no ambiente digital, e que inclui expressamente os dark patterns entre as práticas que pretende enfrentar, dá a dimensão da atualidade do tema.
Em linhas gerais, a expressão dark patterns é utilizada para designar configurações de interface que, através da forma como a informação é apresentada, da ordenação de opções disponíveis e da construção dos percursos de navegação, entre outras manifestações, podem orientar o comportamento dos utilizadores de forma prejudicial aos seus interesses ou à sua autonomia decisória. Embora o fenómeno não se limite às relações entre profissionais e consumidores, interessa aqui examinar a utilidade do conceito especificamente para o Direito do Consumo.
Sabemos que o Direito recorre frequentemente a conceitos desenvolvidos noutras áreas do conhecimento para compreender os fenómenos que procura regular. A utilização desses conceitos, porém, não significa necessariamente que devam ser incorporados na legislação ou constituir critérios autónomos para determinar a ilicitude de uma prática. No caso dos dark patterns, porém, a sua crescente presença no debate académico e regulatório torna pertinente perguntar: até que ponto o Direito do Consumo precisa deste conceito para identificar, regular e, eventualmente, proibir práticas prejudiciais aos consumidores?
Desde logo, cabe dizer que não existe uma definição única e consensual de dark patterns, e as taxonomias desenvolvidas na literatura utilizam critérios distintos para identificar e organizar estas práticas em diferentes categorias. Uma oferta promocional acompanhada de um contador regressivo, por exemplo, pode suscitar dúvidas de classificação: enquanto uma taxonomia pode enquadrar o mecanismo como o padrão urgency, outra pode exigir a criação de uma sensação de urgência necessariamente falsa, tornando discutível essa classificação quando o prazo anunciado é real e a oferta efetivamente termina com o contador.
Ainda assim, tanto o conceito de dark patterns como as diferentes taxonomias existentes podem ser úteis para identificar e sistematizar estratégias de design potencialmente prejudiciais aos consumidores. Essa utilidade, porém, não deve ser confundida com o enquadramento das práticas na legislação: a sua identificação como dark patterns não significa, por si só, que sejam ilícitas.
Considere-se, além do exemplo do contador regressivo, uma interface que destaca visualmente uma opção paga em detrimento de uma alternativa gratuita que dê acesso às mesmas funcionalidades. Essa configuração pode ser classificada como o padrão false hierarchy em determinadas taxonomias. Mas será, por isso, uma prática proibida?
A resposta dependerá das circunstâncias do caso concreto: importa saber como as opções são apresentadas, que informação é disponibilizada ao consumidor e de que forma, e se a configuração da interface preenche os requisitos de alguma das proibições previstas nas normas pertinentes. Naturalmente, o simples destaque visual de uma opção paga ou a utilização de um contador regressivo associado a uma promoção não bastam para concluir pela ilicitude do design em causa.
O mesmo raciocínio vale no sentido inverso: uma prática pode violar normas de proteção dos consumidores mesmo que não seja identificada como dark pattern. É o que sucede, por exemplo, no âmbito da Diretiva das Práticas Comerciais Desleais. O diploma estabelece diferentes níveis de enquadramento das práticas comerciais: o Anexo I identifica práticas que são consideradas desleais em quaisquer circunstâncias; os artigos 6.° e 7.° regulam as ações e omissões enganosas, enquanto os artigos 8.° e 9.° regulam as práticas agressivas. Por sua vez, a cláusula geral do artigo 5.° desempenha uma função residual, permitindo apreciar práticas que não estejam previstas no Anexo I, nem sejam consideradas enganosas ou agressivas. Cada uma destas hipóteses de aplicação da Diretiva obedece, portanto, a pressupostos próprios, cuja verificação deve ser realizada independentemente da eventual classificação de uma prática como dark pattern.
O que importa, portanto, não é saber se determinada prática constitui ou não um dark pattern, mas avaliar os seus mecanismos de funcionamento e a sua suscetibilidade de afetar as decisões de consumo, tendo em conta os pressupostos legais em questão. Assim, uma interface que, por hipótese, apresente informações essencialmente verdadeiras, mas as organize de uma forma suscetível de induzir o consumidor em erro, pode configurar uma prática enganosa, ainda que não seja considerada um dark pattern.
A propósito, cabe lembrar que a influência sobre as escolhas dos consumidores não é exclusiva do ambiente digital. A disposição dos produtos nas prateleiras de um supermercado, por exemplo, também pode ser concebida para favorecer determinadas decisões de compra. A necessidade de distinguir entre estratégias legítimas de persuasão comercial e práticas ilegítimas não surgiu, portanto, com as interfaces digitais. O ambiente digital apresenta, contudo, características próprias, como a possibilidade de modificar rapidamente as interfaces e de recolher e utilizar dados sobre o comportamento e as preferências dos consumidores para adaptar a apresentação das opções e orientar as suas decisões de consumo, através de estratégias de persuasão personalizadas e potencialmente mais eficazes.
Nesse sentido, o conceito de dark patterns pode contribuir para o desenvolvimento de respostas legislativas aos desafios do ambiente digital. Com efeito, a aplicação de disposições gerais a determinadas estratégias de design pode suscitar dificuldades interpretativas e gerar incerteza quanto aos limites da sua licitude. A identificação e sistematização desses mecanismos podem, assim, servir para delimitar com maior precisão os casos que justificam uma proibição ou regulação específica, reforçando a clareza e a segurança jurídica na proteção dos consumidores.
Por outro lado, a ausência de uma definição única de dark patterns suscita questões quanto à utilização do conceito como categoria jurídica autónoma na legislação. A adoção de uma definição legal demasiado rígida do conceito também pode apresentar problemas, nomeadamente o risco de se tornar rapidamente desatualizada perante a constante evolução tecnológica e o surgimento de novas estratégias de design.
O direito da União Europeia já contém disposições que procuram responder a práticas potencialmente problemáticas presentes nas interfaces digitais. O artigo 25.°, n.° 1, do Regulamento dos Serviços Digitais, por exemplo, proíbe que os fornecedores de plataformas em linha concebam, organizem ou operem as suas interfaces de forma a enganar ou manipular os destinatários do serviço, ou a prejudicar substancialmente a sua capacidade de tomar decisões livres e informadas. Embora a disposição não utilize textualmente a expressão dark patterns, o considerando 67 do Regulamento refere-se expressamente a essas práticas e descreve mecanismos de design suscetíveis de comprometer a autonomia e a capacidade de decisão dos destinatários dos serviços.
O artigo 25.°, n.° 1, do Regulamento ilustra, assim, uma resposta legislativa que reconhece os dark patterns como um potencial problema, mas estabelece critérios de proibição sem depender da classificação das práticas segundo as taxonomias desenvolvidas na literatura. Importa ressalvar, contudo, que a aplicabilidade desta proibição às relações de consumo é limitada pelo n.° 2 do mesmo artigo, que exclui as práticas “abrangidas” pela Diretiva das Práticas Comerciais Desleais do âmbito de aplicação da proibição.
Para além das respostas legislativas que possa inspirar, a principal contribuição do conceito de dark patterns talvez esteja em ter dado maior visibilidade ao papel que a arquitetura das interfaces digitais vem desempenhando na formação das decisões de consumo. Nesse sentido, ao identificar e sistematizar esses mecanismos, o próprio conceito de dark patterns e as suas diferentes classificações podem ajudar a compreender se e como determinadas escolhas de design afetam tais decisões, e a reconhecer mecanismos das interfaces digitais relevantes para a aplicação e a elaboração das normas de proteção dos consumidores. A eventual incorporação do próprio conceito na legislação exige, contudo, cautela, tanto pela ausência de uma definição e classificação consensuais de dark patterns como pelo risco de se tornar desatualizado perante a evolução tecnológica.
Assim, tanto na aplicação das normas existentes como na elaboração de novas respostas legislativas, mais importante do que determinar se uma prática constitui um dark pattern ou em que categoria se enquadra é compreender os seus mecanismos de funcionamento e os potenciais efeitos sobre as decisões e os direitos dos consumidores. Com a apresentação da proposta do Digital Fairness Act prevista para breve, será interessante observar de que forma a Comissão Europeia abordará o tema dos dark patterns e que papel atribuirá ao próprio conceito nessa proposta legislativa.
